A MADRUGADA = LEMBRAM-SE?!...

------Dar cabo da vida uns aos outros?!... Oh... Desde de sempre, desde que me conheço esse maléfico hábito é profuso e constante, embora as pessoas, consabendo no íntimo que assim é, finjam quanto podem para dar a ideia do contrário. O meu saudoso amigo Miguel Costa, e amigo por profundos motivos que raramente ocorrem, partiu desta vida com o saco a abarrotar de decepções. Assim que concebeu e colocou a funcionar na noite do Fado portuense a «Madrugada», pequeno, aconchegado, mas muito atractivo recinto típico, o êxito que de imediato logrou trouxe-lhe, além da trabalheira, enormes preocupações, que ele ia desfazendo com a pequena tranca de ferro com que garantia a segurança da porta e da aprazível fruíção da fiel clientela que acorria para saborear ao longo da madrugada um apetitoso cozido-à-portuguesa.

------A «Madrugada», logo à entrada da rua dos Caldeiros a partir da rua das Flores, abriu com base essencial na viola do Miguel Costa e na guitarra portuguesa do Manuel dos Santos, acompanhando as excelentes vozes de Adelaide Madrugada e Ricardo Barreto. Por lá também andava a aprender o dedilhado e a dar ajuda à banza um miúdo chamado Vitor Peixoto, filho do proprietário da casa e que é hoje um dos mais reputados acompanhadores de Fado em guitarra clássica. A «Madrugada», no decurso do tempo, tornou-se de facto num concorridíssimo e apetecível retiro fadista. Por lá passaram e actuaram grandes nomes da modalidade, Tristão da Silva, por reduzido exemplo. Ao cabo de muitas e belas madrugadas, o Miguel apresentou inopinadamente a tocar a seu lado a grande novidade da época: Eduardo Jorge.

Então, para a voz do Ricardo Barreto, com música do Eduardo, nasceu o «É sempre a mesma coisa, meu amor, / são sempre os mesmos repetidos, / até os nossos beijos sem calor / nos dizem que já estamos vencidos...

------Bom o tempo correu, correu muito e depressa. O que era bom e bonito, ao contrário, começou a perder-se pelo caminho e as afamadas casas típicas da cidade foram impiadosamente soçobrando uma a uma. O fado profissional, hoje, cedeu quase por completo o lugar ao designado Fado Vadio, «interessantíssima» função que impõe aos intérpretes que cantem e ainda paguem por cima à guisa de reverente favor.

Ó-do-fado, quem me acode,
gosto tanto de cantar,
mas por cima, pró pagode,
ainda tenho de pagar.


------Há uma dúzia de meses, no Monte Aventino, vi e ouvi uma voz, na pose de um quarentão, que me caíu no apreço pela excelência interpretativa e aprimorado rigor fadista, algo de marialva moderno capaz de arrebatar qualquer Severa. Indaguei para saber quem era. « - É o Fernando Oliveira e Costa, o filho do falecido Miguel Costa...». Apre - disse para o meu fecho de correr, agora que já não há botões - como é que um filho de peixe pelas barbatanas nunca mais poderá morrer pela boca?!... = Porto, 6/8/2008 - TdG






CORRIDA DE FADO

- Táxi, alguém chamou,
eu parei e ela entrou
porta aberta num sorriso;
a meu lado e de face
pediu-me que a levasse
à rua do Paraíso.

Arranquei surpreendido, extasiado, envolvido
num aroma delicado,
enquanto ela, baixinho,
entre lábios, pintadinho,
cantava um bonito fado.
Da fadistice que sou
logo que ela s'internou
pelo refrão da cantiga,
decidi acompanhá-la
como estivesse a guiá-la
de tipóia à moda antiga.

- Pare aqui, disse e pagou,
impulsiva me abraçou
para intensa me beijar,
ali, basbaque indeciso,
na rua do Paraíso
todo eu fado a sonhar.



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Quando entrou para a história parecia não ter memória, singela, simples de mais, antiga, vulgar tasquinha do Peixoto que já tinha o Fado À entrada dos Caldeireiros um dos mestres cabouqueiros do Fado a sério no Porto, por ligação inspirada quis chamar-lhe Madrugada